Hãn? Quanto? Quando?

Superada as apresentações do primeiro post, vamos deixar o formalismo da filosofia alemã um pouco de lado e aproveitar somente a máxima: ‘o mundo é representação’. Mas só depois.

Primeiro. Àqueles que se consideram alheios às artes, proponho um exercício: o que você pensa/sabe sobre Picasso, Renoir ou Cézanne, por exemplo? Suponho que já tenha ouvido algum desses nomes ligados a arte de melhor conceito. Se já pensou sobre eles, possivelmente, foi algo mitificador, como: um pirado que nasceu virado pra lua e possuído por alguma entidade criativa paranormal. Mais ou menos? Isso justificaria bem terem sido artistas capazes de produzir obras avaliadas em até 250 milhões de dólares.

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Jogadores de Carta, de Paul Cèzanne (1892/93) – Vendido em 2011 por 260 milhões de dólares para a Família Real do Quatar

Eu pensava assim; pensava que arte era coisa de gênio e que eu sou um reles espécime normalóide; que esses artistas aí fazem, todos, aquele tipo piradão, meio gênio, meio louco, boêmio e suicida em potencial, dos séculos passados, e que hoje a gente só vê (ou nem) em filme francês ou em museu europeu.

Até que, como contei na nota de apresentação, resolvi fazer aulas de desenho e descobri que desenhar é representar o que os olhos veem e não incorporar o Renoir vestido de pomba gira antes de por algo no papel ou numa tela.

Você já vai entender onde quero chegar com esse papo mole. Trata-se de uma introdução.

Descobrindo que desenhar é retratar o que os olhos veem, entendi que as referências são indispensáveis à representação, ao menos no início. Ou seja, você não ‘dá a luz’ a uma imagem; você olha pra elas e as descreve à sua maneira.

Sabe aquelas frutas lindas (ou nem tanto) postas naquela tela que orna lindamente a parede da casa da sua vizinha?

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Still Life. Auguste Renoir, 1841-1919.

Pois bem, não há dúvida de que a pessoa que pintou isso estava diante de uma fruteira, fazendo aquela cena clássica num banquinho diante dum cavalete, inclinando a cabeça para analisar a referência enquanto faz cara de Michellangelo. Todos os artistas, necessariamente, foram influenciados pelo que viam, até chegarem a algum estilo mais particular.

Daí que passei a olhar pra todas as expressões em artes visuais e pensar: o que será que essa criatura viu e representou até chegar aqui? Nos googles da vida, superficialmente, pesquisei registros sobre as referências do pop star Pablo Picasso (1881 – 1973) e descobri que ele reproduziu, como mero copista, a obra de inúmeros artistas que o precederam antes de alcançar o ranking dos artistas mais versáteis da História da Arte e ter uma tela avaliada em 150 milhões de dólares.

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O Sonho. Pablo Picasso, 1932. Vendida em março de 2013 ao milionário de Wall Street, Steven A. Cohen, por 155 milhões de dólares.

Dando corda pra curiosidade, logo pensei: se Picasso se inspirou em Monet e Renoir, em quem estes terão se inspirado? E numa fração de segundos tive uma vertigem: quem foi o primeiro? Adivinha onde fui parar: 30.000 AC. Isso mesmo. Trinta mil anos antes de Cristo é a data do mais antigo registro de arte visual. Sabem onde dá isso? Período Paleolítico – Pré História. Sabem o que é isso? Eu não. Mas ouvi por aí que nessa época o pessoal tinha acabado de sair das cavernas e ‘recém’-aprendido a falar (estima-se que as primeiras manifestações de linguagem e pensamento abstrato datem de 50.000 A.C). Entendeu agora onde eu queria chegar? Isso mesmo.

História. Aquele papo chato de apostila de colégio ressurge diante de uma breve reflexão sobre onde tudo isso começou. Desde quando o mundo é representado pela arte? Imaginemos, então, o Homem e seus apetrechos:

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Dramático, não? Imagina o tédio.

E como então a espécie saiu daquele estado de abstração? Quais foram e qual impulso levou o homem aos primeiros passos no sentido de representar o mundo? Desconfio que este instinto de registro, comunicação e expressão plástica do pensamento é o mesmo que conduz até hoje a evolução intelectual da humanidade. E olha só que fofuras nos deixaram:

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Esta rechonchuda estatueta é a Vênus de Willendorf, desenterrada na Áustria em 1908, estima-se que tenha sido esculpida entre 22000 e 24000 antes de Cristo. A Vênus pertence ao acervo do Museu de História Natural de Viena. Não se sabe ao certo quais materiais e técnicas foram empregadas na escultura, nem, tampouco, seu significado cultural, embora alguns estudiosos atribuam à simpática gordinha uma forte relação com a fertilidade. A outra imagem mostra pinturas feitas a ocre e carvão, claramente representando a caça de animais silvestres, obviamente, fonte única de subsistência do período.

Assim, parece mais simples imaginar onde toda essa coisa de arte começou e de que forma. Não acham? Pensa: sem TV, naquele domingão de barriga cheia, os vovôsapiens gastavam um tempinho retratando a vovósapiens dos sonhos e também suas… refeições. Hm. Algo familiar? Estaria na Arte Rupestre do Paleolítico as origens do #instafood?

Espero que tenha curtido os ares pré-históricos!

Mais?:

http://super.abril.com.br/blogs/superlistas/10-pinturas-mais-caras-do-mundo/

http://mulheradventista.com/quanto-vale-afinal-uma-obra-de-arte/

http://pt.wikipedia.org/wiki/V%C3%A9nus_de_Willendorf

http://www.brasil.gov.br/sobre/cultura/cultura-brasileira/arte-rupestre

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Sobre Coluna Color in Vita

Camila Lima é advogada, casada, nascida em Lages, Santa Catarina e radicada em Uberlândia desde 2009. Interessada por arte em geral, divide seu tempo livre entre estudos e ensaios em desenho e técnicas de pintura diversas. A facilidade com textos -consequência do exercício profissional, associada ao gosto pela observação de toda arte se combinam em anotações sobre os fatos e impressões alcançados neste trajeto de aprendizado.

4 respostas a Hãn? Quanto? Quando?

  1. Ana Kitana disse:

    Muito Legal Camila, obrigada por nos enriquecer com seu conhecimento e seu humor, ótimo texto.
    Parabéns!!!

  2. Fabiane Toss disse:

    Parabéns pelo texto! Adorei!

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