O legado da Copa do Mundo para o Brasil

O legado da Copa do Mundo para o BrasilNão tem como fugir do tema esta semana. Somos testemunhas (e protagonistas) de um dos momentos mais importantes da história do Brasil em seus 513 anos desde o descobrimento europeu. As manifestações que ocorrem ao redor do país são o resultado da somatória de anos de insatisfação de um povo que não aguenta mais ser sodomizado por governantes, empresários, formadores de opiniões e tantos mais.

Por mais tentador que seja aprofundar no movimento em si, pretendo abordar nas próximas linhas a influência que o futebol tem sobre os protestos. Nada neste país desperta tanta paixão e fervor do que o futebol e a Copa das Confederações está aí. Finalmente, após 63 anos, teremos o mundo do futebol às nossas portas e com expectativas maiores ainda para o maior torneio de todos, a Copa do Mundo da Fifa. Sim, da Fifa. Em 2007, quando o Brasil foi escolhido como sede para 2014, havia um sentimento de alegria e esperança entre alguns por trazermos o maior torneio do nosso esporte favorito de volta ao nosso quintal.

Promessas foram feitas. Nada de dinheiro público, iniciativa privada apoiando forte, melhorias na infraestrutura. Nunca se discutiu tanto por aqui sobre rede hoteleira, reformas nos aeroportos, no transporte público e nas áreas de saúde pública. O tempo foi passando e as promessas foram caindo. A infraestrutura prometida ainda é precária e os elefantes brancos, chamados de “Arenas”, foram afiando suas presas de marfim ao redor do país.

“Venham senadores, congressistas

Por favor escutem o chamado

Não fiquem parados no vão da porta

Não congestionem o corredor

Pois aquele que se machuca

Será aquele que nos impediu

Há uma batalha lá fora

E está rugindo

E logo irá balançar suas janelas

E fazer ruir suas paredes

Pois os tempos estão mudando”

Para que a reforma dantesca do Maracanã? A construção do faraônico estádio de Brasília? Do estádio de Itaquera, em São Paulo, que era para sair por R$ 820 milhões de iniciativa privada e que hoje já custa mais de R$ 1 bilhão, com cerca de R$ 420 milhões de dinheiro público? Para que isto tudo em uma cidade que já tinha ao menos dois estádios prestes a serem reformados com dinheiro privado e aptos a receberem jogos da Copa? Ora, porque muita, MUITA, gente ganha dinheiro com isso tudo. E se o protesto é apartidário, também é “aclubístico”.

Na América Latina, o futebol já foi instrumento da ditadura. Brasil, Chile, Uruguai e Argentina sofreram nas pesadas mãos de generais como Médici, Pinochet , Videla, Bordaberry e outros, que usufruíram o poder e a paixão que o esporte tem com os latinos. Mas, como toda forma de poder, o futebol também foi usado pelo outro lado da moeda, como os protestos no Estádio Viejo Gasometro, na Argentina, ou no Pacaembu, em São Paulo, ou em Santiago, no Chile.

O esporte tem um poder imenso, ainda mais no nosso continente. Quando chegam Blatters, Valckes e outros engravatados que fazem o que querem no nosso país com a subserviência de Lulas, Agnelos, Kassabs, Alckmins e os interesses obscuros nem tão obscuros de Teixeiras, Marins, Sanchez, Del Neros e tantos outros, a coisa explode. E tal qual na ditadura, surge o lema “Brasil: Ame-o ou Deixe-o”, propagado por pessoas de poder que querem abafar a insatisfação.

“Venham escritores e críticos

Aqueles que profetizam com sua caneta

E mantenham seus olhos abertos

A chance não virá novamente

E não falem tão cedo

Pois a roda ainda está girando

E não há como dizer

Quem será nomeado

Pois o perdedor de agora

Mais tarde vencerá

Pois os tempos estão mudando”

Aguentar Joseph Blatter pedir “fair play” em Brasília foi uma das coisas mais revoltantes e tragicômicas da história do esporte. A culpa não pode ser atribuída ao futebol, ao esporte, à Copa do Mundo, à Seleção Brasileira, mas sim a aqueles que usam destes meios para se enriquecerem, nos roubarem nosso esporte favorito, desviarem verba pública, atenderem outros interesses.

“Venham mães e pais

De toda a terra

E não critiquem

O que não podem entender

Seus filhos e filhas

Estão além de seu comando

Sua velha estrada

Está rapidamente envelhecendo

Por favor saiam da nova

Se não puderem dar uma mãozinha

Pois os tempos estão mudando”

As categorias de base do Brasil estão subindo para os profissionais e vestindo a camisa com orgulho, cantando o hino nacional como há muito não se via. E que falta faz Sócrates em um mundo de Ronaldo e Pelé (ou Edson).

Os protestos poderiam ter ocorrido no Pan 2007, ou nas Olimpíadas 2016, mas despertou para a Copa 2014. Talvez este seja o maior legado da Copa para nós.

http://youtu.be/tzwBlm99YJY

(Eddie Vader cantando o clássico “The Times They Are a-Changin’”, de Bob Dylan, que embalou este texto)

coluna.futebol

Sobre

Vinícius Ramos - Jornalista, amante do futebol e de cinema, música e quadrinhos. Já teve textos publicados no site Lancenet! e é amante ferrenho do futebol bem jogado, assim como do cinema clássico.

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