BDMG Pró-Equidade promove ciclo de debates sobre transexualidade

A primeira mesa de debates foi sobre saúde, identidade e violência. (Imagem: BDMG)

A primeira mesa de debates foi sobre saúde, identidade e violência. (Imagem: BDMG)

A quebra de paradigmas arraigados no âmago da sociedade brasileira foi um dos principais pontos debatidos durante o ciclo de debates “Visibilidade Trans”, promovido pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) nos dias 24, 30 e 31 de agosto em Belo Horizonte. O auditório se encheu de representantes da comunidade e pessoas interessadas em aprender mais sobre este universo.

A primeira mesa de debates foi sobre saúde, identidade e violência e teve como palestrantes Anyky Lima (Presidente do Cellos – Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual de Minas Gerais); Sissy Kelly (Representante da Rede TransBrasil e militante e ativista dos direitos humanos da cidade de Belo Horizonte); Paulo Bevilacqua (Idealizador dos sites TransEmpregos e Transerviços); Raul Capistrano (um dos responsáveis pelo TransEnem, pré-vestibular voltado para pessoas trans) e Sofia Favero (administradora da página Travesti Reflexiva e coordenadora do EducaTrans).

Anyky abriu os trabalhos destacando a violência e o preconceito que a comunidade de travestis e transexuais sofre diariamente, que começa em casa com a não aceitação de suas famílias e se perpetua por todos os ambientes. “Nós podemos e somos capazes de ocupar qualquer espaço e qualquer lugar, mas a maioria das pessoas escolhem nos humilhar. Não temos leis que nos apoiem e sempre me pergunto porque não somos incluídas (os) nos chamados direitos humanos”, ressaltou.

Complementando sua fala, Sissy Kelly destacou que o problema é ainda maior com as travestis e transexuais idosas e portadoras de HIV. “Saúde é nosso bem maior e a violência que sofremos é real. Venho lutando pelo uso de meu nome social dentro de ambulatórios e postos de saúde e não consigo ter esse direito respeitado. Lutamos pela criação de alas específicas para atender ao público LGBT, mas ainda não foi possível”. O chamado Nome Social é o novo nome adotado por travestis e transexuais que difere do nome de registro da certidão de nascimento.

Sofia Favero falou sobre sua experiência como estudante de Psicologia e frisou como a medicina insiste em tratar a travestilidade e transexualidade como patologias. “Não somos falsificações. A Transexualidade também é transformação e não somos apenas sofrimentos e histórias de terror. Somos pessoas que vivemos alegrias e tristezas e que temos sim muitas dificuldades e muita luta”, declarou.

Paulo Bevilacqua e Raul Capistrano trouxeram suas perspectivas como homens trans. Raul conseguiu sua troca de registro, com a retificação do nome e gênero em seus documentos e deseja que todos possam chegar aonde chegou, mas sabe que não está ileso dos problemas e preconceitos apesar da conquista. “Hoje em me enquadrei, mas sei que não estou imune. Conheço muito bem a demanda e os sofrimentos dos homens trans, e a verdade é uma só: não podemos errar! Não temos esse direito”, afirmou.

Trabalho e educação

O segundo dia tratou dos temas mercado de trabalho e acesso à educação e trouxe como convidados Maria Clara Araújo (ativista transexual e estudante de Pedagogia da UFPE); Sayonara N. B. Nogueira (professora de Geografia e coordenadora de Comunicação da Rede Trans Brasil); Daniela Andrade (ativista transexual, com formação superior em Letras e Tecnologia da Informação e uma das fundadoras do portal Transempregos) e João W. Nery  (pioneiro na causa dos homens trans no Brasil, psicólogo, consultor em gênero e sexualidade e ativista dos direitos humanos).

Daniela Andrade destacou a importância da realização de eventos dessa natureza voltados para o público T e de como a transfobia é algo sólido e comum a todas as esferas da sociedade. “Não temos direito à educação. A escola é um motor de exclusão. Sofri muita discriminação e violência enquanto estudava e, hoje, não sou a Daniela e sim a transexual da empresa. Se um homem erra, é algo individual. Se eu erro, represento todos os transexuais do mundo”, declarou.

Sayonara reiterou o fato de as escolas serem motor de exclusão e também a questão do uso dos banheiros, que é um problema recorrente na vida destas pessoas. “Não existem políticas públicas dentro da educação e a discriminação nos obriga a ir para a as ruas e aceitar a prostituição e os subempregos. Eu sou professora, mas preciso fazer faxina para aumentar minha renda e conseguir me sustentar”. Maria Clara, como estudante de Pedagogia, concordou e criticou o sistema de educação. “Entrar na escola é até possível, mas ninguém fala como é difícil permanecer estudando. Nós não desistimos da escola: somos expulsas mesmo!”, enfatizou.

Como o único homem trans do grupo, João trouxe outros questionamentos, como o fato de não existirem apenas os gêneros masculino e feminino e sim dezenas de outros. “Sou a favor da desconstrução do gênero. Eu considero uma dádiva ser homem trans, pois eu posso tudo! Os homens não podem – diz a sociedade – mas eu posso chorar e fraquejar”.

O próximo módulo de discussão do BDMG Pró-Equidade está marcado para outubro e deve tratar de temas relacionados às PCDs (Pessoas com Deficiência).

Agência Minas

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