Movimento contra redes de fast-food ganha espaço no Brasil

Pavilhão Lingotto, em Turim, onde ocorreu o Salone de Gusto, do Slow Food (foto: Ansa)

Pavilhão Lingotto, em Turim, onde ocorreu o Salone de Gusto, do Slow Food (foto: Ansa)

Comida boa, limpa e justa. Esse é o lema da Slow Food, organização criada pelo italiano Carlo Petrini, na pequena cidade de Bra, em 1986, para protestar contra a invasão das lanchonetes fast-food na Itália. Em 28 anos, ela se espalhou por 150 países e já possui 100 mil associados, totalizando um milhão de adeptos. No Brasil, a rede possui centenas de apoiadores que influenciam o olhar sobre os alimentos no país. A caminhada é contra a corrente da padronização do alimento.

Segundo a Oxfam, entidade internacional que atua na investigação e combate à pobreza, apenas 10 mega-empresas controlam o mundo da alimentação, entre elas, Nestlé, Coca-Cola, Pepsico e Unilever, por exemplo. Além disso, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), são 805 milhões de pessoas que passam fome no mundo. Mas, além da força crescente de seus colaboradores, o desafio do Slow Food também conta com o apoio de personalidades importantes no cenário político mundial.

Dois deles manifestaram-se às vésperas dos dois maiores eventos criados pelo movimento, o “Salone del Gusto” e o “Terra Madre”, realizados entre os dias 24 e 27 de outubro, em Turim. Em carta enviada pelo Vaticano, o papa Francisco comentou sobre o compromisso do Slow Food “de garantir que ninguém no mundo fique carente de nutrição necessária e saudável”. Dos Estados Unidos, a primeira-dama Michelle Obama mandou mensagem de agradecimento “por tudo o que estão fazendo para promover uma dieta saudável e nutritiva para as nossas famílias e comunidades.”

“Cresceu o número de visitantes estrangeiros e de jovens”, disse à ANSA Paolo Di Croce, secretário geral do Slow Food, sobre os eventos na Itália. “Finalmente podemos provar que jovens se interessam por boa gastronomia e não apenas pela dinâmica do fast-food e da comida industrializada”, comentou. Para o coordenador do Slow Food no Brasil, Georges Schnyder, a possibilidade aberta pelos salões para pequenos produtores se aproximarem do mercado europeu é um passo importante para um caminho mais sustentável de distribuição. “Você tira os intermediários e isso faz com que um lado tenha um produto melhor e o outro seja remunerado de forma mais justa”, explicou.

Por trás dos grandes eventos, o Slow Food trabalha em pequenos grupos. Os encontros e discussões ocorrem nos 1,3 mil “convívios” ao redor do planeta. Neles são organizadas as conexões entre produtores e consumidores, as campanhas de conscientização e os debates. O Brasil, que possui cerca de 40 convívios, é considerado uma das principais apostas para o crescimento do Slow Food. Mas o contexto não é simples. A cultura do latifúndio, instalada no país desde o período colonial, tem sido cada vez mais aprimorada com os investimentos no agronegócio. Mas a situação não desanima os militantes da organização.

“Existe uma aproximação com o governo brasileiro nos últimos anos que tem sido importante para colocar em prática a agricultura familiar. O Brasil é um grande exemplo para o mundo”, disse Di Croce, que vê no atual momento gastronômico da América Latina uma oportunidade para o desenvolvimento da filosofia “slow”.

Há 13 anos no Brasil, o Slow Food trabalha com ações próprias e parcerias. Boa parte delas, com o Ministério do Desenvolvimento Agrário. Entre as principais criações, estão as as edições nacionais do “Terra Madre” e o estabelecimento das “Fortalezas”, projetos de apoio a produtores de bens agrícolas ameaçados.

Ao todo, há oito destes projetos em vigor no país. Uma delas é a “Semana Mesa”. Neste ano, o encontro ocorre entre os dias 3 e 5 de novembro, em São Paulo, e vai reunir dezenas de produtores e chefs. “O que me traz a alegria é que o Slow Food faz essa conexão entre o produtor com a cozinha. É uma alternativa clara diante da situação atual da indústria de alimentos. Não é utópica. Muitos países fazem isso, inclusive de onde vêm as grandes empresas de alimentação, que usam a agricultura familiar para se desenvolver”, afirmou Schnyder, membro do movimento desde 2008.

A redescoberta dos prazeres dos alimentos e a compreensão de suas origens têm encontrado cada vez mais adeptos no país. Cláudia Mattos, chef do restaurante Espaço ZYM, diz que, antes mesmo de conhecer o Slow Food, já utilizava algumas medidas sustentáveis no seu dia-dia, como uso de frutas nativas, captação de água das chuvas e comércio com pequenos produtores.

Já a chef e professora do Senac Tatiane Thon ressalta que a adesão dos restaurantes vêm aumentado. Para ela, hoje em dia existe uma necessidade de usar o que a natureza oferece sem esgotar os recursos.

Vários restaurantes cadastrados pelo Slow Food adotam programas como o “Quilômetro Zero”, o qual exige que os alimentos sejam de uma proveniência de até oito quilômetros de distância do local de venda.

 Atuação política – Apesar de seu berço europeu, é longe do velho continente que o movimento Slow Food tem apresentado mais resultados. Nos Estados Unidos, terra dos fast-foods, as “farmers market”, feiras em que os pequenos produtores vendem diretamente aos consumidores, ganham cada vez mais espaço.

Já na África, o programa “mil hortas”, criado em 2010, conseguiu atingir sua meta e agora estabeleceu um objetivo mais audacioso: construir outras 10 mil hortas nos próximos anos, estabelecendo a cultura de cultivos locais e a variedade de produtos no continente. “O tema é global e as soluções precisam ser globais”, explica Di Croce.

Fonte: Ansa Brasil

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