A 100 dias dos Jogos, Brasil está longe do pódio

Rio 2016As lágrimas de alegria de Lula no momento da entrega das Olimpíadas ao Rio de Janeiro, em outubro de 2009, são a imagem desbotada de uma potência emergente empurrada pelos ótimos resultados econômicos, políticos e sociais e que agora não existe mais. O Brasil de hoje, a 100 dias da abertura dos Jogos do Rio, é muito diferente daquele de sete anos atrás.

A crise morde, a economia está em recessão, a inflação chegou aos dois dígitos, o mercado de trabalho perdeu quase 2 milhões de postos apenas nos últimos 12 meses, os preços aumentam e o impeachment da presidente Dilma Rousseff parece cada vez mais inevitável.

Uma conjuntura negativa que se reflete também nas Olimpíadas: os organizadores tiveram de reduzir em R$ 900 milhões a estimativa de custo dos Jogos. Os cortes atingiram sobretudo as estruturas e construções temporárias, enquanto outras obras foram redimensionadas. O veículo leve sobre trilhos, por exemplo, operará exclusivamente de Ipanema à Barra da Tijuca, onde fica a Vila Olímpica, sem parar nas outras estações.

Já a arquibancada flutuante da lagoa Rodrigo de Freitas, onde os níveis de poluição são cada vez maiores, foi definitivamente cancelada. Agora serão apenas 6 mil lugares para assistir às provas de canoagem, contra os 14 mil previstos. Em Londres, eram 25 mil assentos disponíveis. O dinheiro acabou. O governo federal, empenhado em uma luta política pela própria sobrevivência, está com o caixa vazio, enquanto o estado do Rio de Janeiro está à beira da bancarrota.

Para complicar ainda mais a situação, há a epidemia de zika, que está fazendo definhar a venda de bilhetes para as competições de agosto. A tudo isso se deve acrescentar problemas endêmicos de corrupção, criminalidade, trânsito caótico e poluição. Sem contar as recentes ameaças terroristas do Estado Islâmico, levadas a sério pelas autoridades e dirigidas a pelo menos 10 delegações, incluindo Estados Unidos, França, Reino Unido e Israel.

Como se não bastasse, nos últimos dias desabou uma parte da futurista ciclovia construída sobre o mar – não muito longe da Casa Italia (‘sede’ do país europeu durante os Jogos) e inaugurada apenas três meses antes pelo prefeito Eduardo Paes -, matando dois ciclistas amadores.

Os Jogos serão disputados em quatro regiões da capital fluminense: Barra da Tijuca, Copacabana, Maracanã e Deodoro. Dos 33 locais onde haverá competições, 14 ainda estão em obras. Os que mais causaram impacto nos cofres públicos foram o Parque Olímpico, que custou R$ 2,34 bilhões, e a Vila dos Atletas, de R$ 2,9 bilhões.

As estruturas mais atrasadas são o Velódromo, o Centro Aquático, cuja capacidade foi reduzida de 18 mil para 13.750 lugares, o Centro Hípico e as quadras de tênis. A presidente Dilma Rousseff assegurou recentemente que as Olimpíadas do Rio serão as “mais bonitas”. No entanto, é muito provável que ela não esteja no cargo durante os Jogos e que em seu lugar esteja o vice Michel Temer, um dos políticos menos amados do Brasil.

Se eventualmente Temer também cair, será empossado o presidente da Câmara Eduardo Cunha, envolvido em escândalos de corrupção e acusado por Dilma de ter arquitetado o impeachment para encobrir os próprios problemas judiciais.

Em breve se saberá quem assistirá da tribuna de honra do Maracanã à cerimônia de abertura, em 5 de agosto. Mas uma coisa é certa: independentemente de quem for, será submetido às vaias dos brasileiros, que exigem o fim de um sistema político corrupto e voltado aos próprios interesses.

Agência Ansa

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