Infectologista alerta que maioria das picadas do Aedes ocorre dentro de casa

Infectologista alerta que maioria das picadas do Aedes ocorre dentro de casaNo Dia Nacional de Mobilização para o Combate ao Aedes aegypti, data em que o governo federal pretende promover a visitação em 3 milhões de lares espalhados por 350 municípios brasileiros, a Universidade Federal de Uberlândia (UFU) apresenta este bate-papo com o médico infectologista Marcelo Simão Ferreira. Professor da Faculdade de Medicina (Famed/UFU) há 33 anos e com 38 anos de experiência principalmente na área de doenças tropicais, ele alerta para a importância da prevenção contra o mosquito, vetor da dengue e também do zika vírus e das febres amarela e chikungunya. Confira a entrevista:

Portal Comunica – Em se tratando das picadas do Aedes aegypti, é possível definir com qual doença a pessoa está, observando-se apenas os sintomas apresentados por ela?

Dr. Marcelo Simão Ferreira – Clinicamente, é muito difícil distinguir estas doenças porque os quadros clínicos delas são bem semelhantes. Todas provocam febre, dor de cabeça, muita dor no corpo, dores nas juntas e podem causar o que a gente chama de erupção cutânea, que são manchas avermelhadas pelo corpo. A duração também é mais ou menos a mesma, com ciclos parecidos. O zika dura um pouquinho menos, de 4 a 5 dias, enquanto o dengue e a chikungunya levam em torno de 7 a 10 dias. O ciclo do dengue, em geral, encerra em 7 dias e o da chikungunya pode ser de até 10 dias. Mas repito que é difícil distingui-las pelos sintomas. É preciso dos resultados dos exames laboratoriais para poder dizer qual é a doença, em termos clínicos.

E com relação ao comportamento e ao perigo destas patologias?

Isso sim é totalmente diferente. O dengue é uma doença que mata e sabemos que muitas mortes ainda ocorrem no Brasil todos os anos por causa desta doença. Chikungunya não mata; é muito raro que mate. Temos conhecimento de apenas uma morte por chikungunya no País. Quanto ao zika, por si só, ele não mata. O que ele pode fazer é complicar um quadro trazendo doenças neurológicas. Raramente, mas pode complicar. Uma pessoa que contrai zika passa a ter oito vezes mais chances de desenvolver uma síndrome que se chama de Guillain-Barré. Basicamente, esta é uma doença autoimune que ocorre quando o sistema imunológico do corpo ataca parte do próprio sistema nervoso por engano. Isso leva à inflamação dos nervos e, consequentemente, fraqueza muscular.

Mas o que está causando tanto medo do zika vírus é a microcefalia…

Verdade, porém ainda não está provada a relação entre a microcefalia e o zika. A ligação é epidemiológica. Nas áreas em que se têm muito zika apareceu muita microcefalia. Em geral, as crianças nascidas com microcefalia são filhas de gestantes que tiveram zika. Então, infere-se que seja por causa deste vírus, mas ainda não temos a prova cabal de que o motivo foi realmente ele.

Estas doenças eram até pouco tempo desconhecidas, mas o causador delas é um só, velho conhecido da população brasileira e que só pode ser combatido se toda a sociedade colaborar para evitar o seu nascimento, não é verdade?

Exatamente! Em todos os casos, o inimigo é um só. O que temos que fazer é combater o mosquito, o danado do Aedes aegypti. A população precisa se conscientizar porque a maioria das picadas ocorre dentro de casa, na hora que a pessoa está dormindo ou descansando. Ela pode estar ali, trabalhando tranquilamente, quando o mosquito vem pica numa área descoberta e injeta o vírus. O detalhe é que podem ser injetados até dois de uma vez. Ou seja, pega-se duas infecções ao mesmo tempo: dengue e chikungunya. Isso já está demonstrado que pode acontecer. Então, a luta é contra o mosquito. A vacina contra o dengue está começando a ser administrada agora, mas é em três doses e difícil de se fazer, pois é preciso encontrar o mesmo indivíduo três vezes para poder imunizá-lo contra o dengue. E a proteção é só de 60%, não é total. É diferente da febre amarela urbana, que também pode ser transmitida pelo Aedes aegypti. Ela tem uma vacina com dose única e extremamente imunogênica: um mês depois praticamente todo mundo está imune a ela.

Em que pé estão as pesquisas para a descoberta da vacina contra o zika vírus?

O que sei é que estas pesquisas na tentativa de imunizar contra o zika estão acontecendo. A gente ainda não tem conhecimento se após alguém ter zika vai ficar imune a este vírus ou pode pegá-lo de novo. Ninguém conhece nada sobre este vírus ainda. Ele saiu da África, se espalhou pela Ásia, apareceu aqui e daqui seguiu para a América. Agora, vem a preocupação mundial por causa das Olimpíadas. Provavelmente, muita gente que vier ao Brasil em julho e agosto para os Jogos vai pegar doenças causadas pelo Aedes, entre elas o zika. Existem países que estão até cogitando boicotar a competição por este receio. O medo maior não é tanto com esta doença, mas com a tal da microcefalia. Mas repito que ainda não temos a prova cabal de que a microcefalia é causada por este vírus. A possibilidade é grande, porém ainda não há a confirmação.

Quais são as regiões do Brasil que causam maior preocupação e como estão os registros em Minas Gerais?

Todo o Nordeste está bem suscetível. O Espírito Santo preocupa. Minas Gerais tem poucos casos, mais ou menos 40 e poucos casos, e não tem nenhum de microcefalia ainda. De chikungunya o nosso estado está cheio e agora comprovaram-se em cidades próximas aqui a Uberlândia 3 a 4 casos de zika. Foram pessoas que vieram da Bahia, do Rio de Janeiro e do Mato Grosso. Enfim, nós estamos rodeados e o perigo vem de todos os lados. Infelizmente, a chance de termos o crescimento do zika aqui é muito grande.

O que fazer quando surgem os primeiros sintomas?

Nada de primeiros cuidados por conta própria. Cuidados paliativos tomados em casa podem agravar o quadro. É preciso procurar o médico para descobrir qual doença se tem, pois cada uma exige uma conduta. Então, o paciente vai ser encaminhado para os testes e os resultados destes exames laboratoriais é que vão apontar qual é o vírus. As notificações dos casos também são muito importantes para as autoridades de saúde fazerem um mapeamento e intensificarem a atenção nas localidades com maior incidência das doenças causadas pelo Aedes.

Algumas endemias praticamente sumiram do noticiário, o que é muito bom. Isso significa que estão controladas e não oferecem mais perigo à população?

Este pensamento não pode existir. A gripe H1N1 foi terrível. Quase não se fala mais nela, mas ela segue aí. Temos um paciente internado em estado gravíssimo e que provavelmente está com H1N1. Estas doenças endêmicas que acometem milhões de pessoas, como a esquistossomose e a doença de Chagas, até que diminuíram bastante aqui no Brasil. Podemos citar também a malária, que diminuiu muito na Amazônia, caindo de 1 milhão para 150 mil casos por ano. Sem dúvida, é um belo progresso, mas a doença não acabou e segue contaminando. Isso é um fenômeno normal na natureza: enquanto uma doença diminui, outras emergem. É o que está acontecendo agora com estes vírus causados pelo mosquito. O que é importante frisar são as medidas básicas de higiene que evitam várias patologias. O nosso ambiente tropical propicia muito a propagação dos principais vetores delas.

UFU

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